quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Tem dias que a gente se sente...

Hoje acordei um pouco Kurt. Coração de Vinicius, querendo todo amor. Unhas do Zé do caixão, unhando o coração apertado de saudade.
Hoje abri os olhos de ressaca de Capitu. Quis ser Elis, tocar Mozart.
Hoje eu queria ser tudo.
Escolhi roupas de Janis; troquei por Paula Fernandes. Fui hippie e fui da terra.
Hoje clamei Cazuza – coisa que nunca fiz -, sambei Cartola, dancei The Doors.
Senti-me até meio artista macaco.
Hoje quis ser, quis ter...
Hoje quis sarar a dor, provocar o mal, destruir a saudade e voltar pra lá, acolá, do lado de lá.
Hoje quis beijos e sorrisos, choros e barulhos sem fim no silêncio infinito.
Hoje me permiti à incoerência, a inadimplência, a presença do mau-humor constante e inexplicável.
Só hoje...
Por que como seria diferente agora tão longe?
Como poderia não me camuflar em artistas, agora que esse corpo de menina chora de vontades?
Bom, deixe-me então terminar meu dia inventando... Ainda há tantos que quero ser.
Quero um pouco de Amelie, outro tanto de Alice e uma pitada de Pequeno Príncipe.
Deixo lugar também para Rita Lee e seus cabelos de fogo, que me abrem espaço à Kate Nash.
Sou Fátima Bernardes, William Bonner, Evaristo Silva...
Sou o analfabeto da esquina... Sou o crack, o crash e o remédio.
Sou inteira lexotan e homeopatia. Anfetamina. Paracetamol. Sépia.
Hoje não quero ser a dúvida e nem a indecisão... Quero ser tudo ao mesmo tempo.
Pra trazer vocês pra mim, meus queridos. Pra quebrar essa estrada, esse passado, esse tempo linear irritante que me assombra.

sábado, 26 de setembro de 2009

Descanso

Se acaso me encontrares
Escondida em jazida escura
Lembre-se de que foi meu ouro,
procure por minha tumba

"-Aqui jaz pobre coitada
que morreu sem mais demoras,
que pelo amor foi apedrejada
e à sete palmos está agora."

Escrito em palavras sólidas
de dourado e curtas letras.
Epitáfio de alma cálida
cercado por rosas negras

Ah!Se em vida eu estivesse,
se pisasse em firme chão,
ainda arrastaria dias por este amor.

Por que não há beleza se não em ti.
Nem mesmo a luz que se aproxima,
que irradia a minha sina,
é capaz de me inebriar

E quis teus risos,tuas histórias,
teu poema e tua flor.
Quis teus cantos de amor
pra contar-lhe minha memórias

Quis ser harpa dedilhada
Ser alimento e ar...tua vida.
Ser tua mulher,sua amiga,
ser amante e ser amada

Mas me julgastes meretriz!
E tão pouco me quizestes
pra em sua cama me deitar.

E tamanho foi o desamor
que do amor fiquei cansada
e aterrada fui descansar.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Jeito de mato.

Come se fossem intermináveis as férias e/ou feriados seguem por dias, e dias, e horas... Se permitem o desfrute de se eternizarem. E é nesse ponto de pseudo-sempre que surgem as vontades espremidas no cantinho da alma, junto das tais conversas passadistas familiares. Não que isso seja pecado, muito pelo contrário, me parece uma ótima ocupação, mas um tanto quanto decadente. Isso por que somos - nós filhos da tradição e do pão de queijo - construídos de desejos reprimidos e vontades transformadas em piadas. Também temos o doce e o melado da fala mansa, e digo com orgulho. Mas a casa ainda é assassinada pela moral interiorana.

Ah!Se pudesse acho que todos gritariam suas poesias, fantasias e músicas. Declarariam fetiches aos velhinhos do coreto e mergulhariam em uma overdose de alma, diferente desta que tenho visto nas Minas Gerais. Se coubesse nesse tal canto de terra roxa e mato, diriam sobre seus mitos, fantasias e da extrema admiração pelo impossível. E no meio do gado e da baquiária se assumiria o “eu” que mata e sangra o costume dos baianos cansados - mas trabalhadores, que fique claro. Inteiramente desproporcional e indireto.

Mas mesmo com o amargo no fim do doce de figo eu sei que eles gostam... Eu gosto!O frescor do passado. As lembranças, as certezas incontestáveis (agora contestadas), a nostalgia que surge sempre depois de uns goles a mais – e vem carregada de “uai”.
Pode até ser que Drummond estivesse certo ao dizer: “Há os mineiros que ficam e os mineiros que vão”. E realmente, muitos não se adaptarão novamente a casa amada com cheiro de mato... Mas não se esquecerão e, com certeza, apagarão as más lembranças.
Lá, nos meus breves momentos, finjo sem fingir. Me entorpeço no doce azedo da vida, quase uma coalhada, e posso ser quem não sou sem gastar grandes ursupações. A incrível naturalidade de ser quem se deve ser, pensar o que se deve pensar e falar somente o agradável (seguido de “uai”) acontece. Vem de dentro e estoura, fascinando de fora.
Traumas de tradição não destroem o orgulho do pé no chão não, Drummond.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Versos (es)corridos.

Mão-pedra,cai no chão
liberta esse pobre coração que não sabe amar
que samba sozinho no samba pra dois
que anda trôpego por só se calar

Segue caminho de trem
vá como quiser,mas paire longe desse coitado coração
Não vês que está zangado?
Entregue sem perdão?

Se corte na navalha
se queime em brasa quente
Apenas se jogue de um precipício,óh minha querida.

Não ouse se aproximar da boca
Se contenha em unhas e dedos
suma antes que o coração se perturbe
antes que a alma te reconheça e fique louca.

Céu cinza,coração?
é a mão que tapou o sol.
são os dedos que escoam dor.
é o nojo que raia o dia.

Retrato de um passado ou personificação da Morte.

Ao que me parece está começando de novo.A ânsia que vem do ímpeto,a gastrite cardíaca,o nojo ocular e do tempo.Não deveria me atrever a escrever tão cruelmente sobre algo que deveria representar poesia,afinal,existe sentimento mais poético que a dor?O desamor?Receio que haja a Morte,frenética e charmosa dona dos pensamentos mais sublimes e macabros (morte macabra...soa um tanto redundante,não?nemumpoucobonito.)

Estive pensando quanto a cor e o cheiro desse papel virtual em que escrevo.Não que ele exale algo,mas já é de se imaginar que alguém que ama palavras,como eu,se entregue à sinestesia.
O cheiro da dor.O cheiro do desamor.O cheiro do ralo (me parecem tem esquecido do cheiro da Morte.Mas há quem se lembre.)

E por incrível que pareça o cheiro tem um lugar.O grandioso amassado de cimento que me afasta da boca do bueiro é tão próximo que ás vezes minhas pernas tremem.Este enorme cinza que barra o meu vermelho (que acaba por se reproduzir aqui.)Vermelho da terra que sustenta meu campos,todos,os gerais.(ou seria terra roxa?).
E tem o preto do barulho,da sua proteção e locomoção,oh Morte!

E chega de mansinho dessa vez...na madrugada embaça meus olhos e eu sei que está por perto.Muito mais que perto.Dentro de mim.Mais precisamente ao lado do canto que solta o fedor da dor e do medo.

Eu só não quero sair da linha,senhora (or) Morte.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Desmanche seu sorriso,mulher-maravilha!

Nina já não sabia mais como se apresentar as pessoas. Como tudo em sua vida, achava incrivelmente chato ter que dizer esse pequeno nome com o sorriso estampado na cara (como era simpática nossa Nina menina),sendo que por dentro permanecia em pedaços;pedaços intocáveis,que fique bem claro.
Seu nariz parecia deixar vazar aquele incrível vazio que sentia por dentro... Contava seus segredos desenhados em sangue de uma forma que tornava quase impossível estancar.

Aquele rio vermelho que escorria e que por tantas vezes desejara ela sair de suas mãos... Ah, O rio vermelho com gosto de desamor e vadiagem...

Mas se negava a sentir seu gosto. Mais próximo que chegava à boca já era motivo de correr, se cobrir de papel higiênico barato e matar o sinal da morte; jogar aquele sangue amargo de volta para onde jamais deveria ter saído. De sua alma; de seus olhos não tão serenos. O sangue do seu passado não tão antigo; passado de vítima, passado de puta,não é mesmo Nina?

Nina não gostava da não força, preferia parecer sempre super-mulher. Aprendera a ser assim, e é assim que pretende viver até aceitar o super-homem, partir para smallville, prender todos super-vilões, ter super-filhos, e talvez não se sentir super-puta.Quem sabe assim esqueça seu super-passado e se torne super-feliz.Porque neste momento,pobre Nina,sua bochechas doem de forçar sorriso e seu braço é pesado.Peso da mão.Maldita mão.Pra que servem se não para acharem que sabem mostrar o caminho e direcionar o corpo e a alma?Prepotentes, isso que elas são. Prepotentes e de cinco dedos. Gananciosas.

Oh Nina, você precisa de um abraço?Talvez não seja isso. Quer dinheiro?Estudo?
Deixe-me então disfarçar seu sorriso, laciar seu rosto, amolecer sua pele?Amputar suas mãos?Cubra-me de sangue e de lágrimas Nina,e deixe-se vazar de dentro pra fora desta vez.

"Quem manda aqui é a galera do chapéu!"

Tanto tempo assim sem comparecer deve ter um grande motivo certo?E meu motivo tem nomes, sobrenomes, idades, piadas, danças, gírias e fica no interiorzão de Minas Gerais.